18/3/08
A TOLERÂNCIA COMO MÉTODO
Entre tantos dos extraordinários artigos e ensaios do grande filósofo e jurista italiano NORBERTO BOBBIO, um deles é intitulado “ Tolerância e Verdade” ( inserido no livro denominado “ Elogio da Serenidade”, Tradução Marco Aurélio Nogueira , São Paulo : Editora Unesp, 2002, p. 149 a 155). Deste texto, vou extrair alguns momentos e os utilizarei para estimular, no meu Leitor, reflexões.
Bobbio principia ensinando que a idéia de tolerância “nasceu e se desenvolveu no terreno das controvérsias religiosas”. Registra que seus grandes defensores desde Locke até Voltaire dedicaram-se ao combate a todas as formas de intolerância que “ensangüentaram a Europa durante séculos, depois da ruptura do universalismo religioso por obra das Igrejas reformadoras e das seitas heréticas.” Evoluindo vagarosa mas consistentemente , a idéia de tolerância passa do “terreno das controvérsias religiosas” para o “terreno das controvérsias políticas”, vale dizer, “do contraste entre aquelas formas de religião moderna que são as ideologias.”
O professor italiano propõe que o núcleo da idéia de tolerância seja o reconhecimento “ do igual direito a conviver” que se confere a “doutrinas opostas e, portanto, do direito ao erro, pelo menos ao erro cometido em boa-fé”. Para ele o nascimento da exigência da tolerância ocorre “no momento em que se toma consciência da irredutibilidade das opiniões e da necessidade de encontrar” um modo de convivência entre elas.
Contudo é preciso tomar muito cuidado quando se estabelecer critérios para excluir da tolerância alguém ou as idéias de alguém. Por exemplo, não convém utilizar a distinção entre idéias progressistas e idéias reacionárias para excluir alguém ou suas idéias da tolerância, porque isto é, no mínimo, “perigoso”. E é perigoso, acrescento eu, porque os conceitos de “reacionário” e de “progressista” são muito subjetivos, variam entre as pessoas.
O que Bobbio propõe como único critério que considera lícito para limitar a regra da tolerância é “ o que está implícito na idéia mesma de tolerância, que se pode formular brevemente do seguinte modo: todas as idéias devem ser toleradas, menos aquelas que negam a idéia mesma de tolerância”.
Na verdade, a grande questão é : devem ser tolerados os intolerantes?
Não é fácil responder esta pergunta, entre outros motivos, porque existem “diversas gradações de intolerância e são vários os âmbitos em que a intolerância se pode manifestar.”
Para compreender melhor este delicado tema, busca-se o conhecimento histórico. Mas, mesmo ali, a dificuldade permanece. É que, como ensina Norberto Bobbio, “ a lição da história é ambígua”. E traz a seguinte ponderação/interrogação: “ Um filósofo francês se pergunta: se aparecesse hoje um Hitler querendo publicar o seu livro intitulado “ Mein Kampf” ( “Minha Luta”) deveríamos permitir que o fizesse?”. Lembro aos Leitores que na ocasião em que o referido Livro de Adolf Hitler foi publicado na Alemanha não se podia prever as imensas e terríveis conseqüências decorrentes da aplicação, pelo seu autor, das idéias ali contidas, quando exerceu o poder ditatorial e dizimou milhões de seres humanos, sob o pretexto de que a sua tese de supremacia da raça ariana era a única verdadeira.
Ao encerrar suas objetivas, mas muito profundas considerações sobre o tema, Bobbio considera a tolerância como “um método que implica” no “uso da persuasão perante aqueles que pensam diferentemente de nós, e não o método de imposição”. Nesta linha de raciocínio, ele registra que o “laicismo é um dos componentes essenciais do mundo moderno” que as religiões, especialmente o cristianismo, “ acabaram por aceitar”. E enfatiza que “ em todas as Constituições modernas está afirmado o princípio da liberdade de religião” a qual é, para Bobbio, a liberdade “ não apenas daqueles que professam uma religião, mas também daqueles que não professam nenhuma” religião.
Eis uma opção “metodológica” de compreensão da tolerância que, a meu juízo, merece, sem dúvida, uma reflexão contínua, séria e de grande intensidade, mormente pela perspectiva de debate que abriu quanto ao novo limite da tolerância e, por antítese, quanto à nova restrição à intolerância !
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